Newton Reis de Moura
4 de junho de 2008

Engenheiro mecânico formado pela UFRJ, com MBA em gás & energia pela USP, e mestrando pela UFRJ com trabalho de modelagem em CFD de um compressor de turbina a gás.

Newton é consultor técnico em tecnologias de gás natural e coordenador de projetos em transporte de gás natural, turbinas a gás, postos de hidrogênio e geração de energia.

  • Newton: Boa tarde a todos
  • Luiz diz: Quais são os processos de transformação do gás?
  • Newton: Luiz, existem dois processos de transformação de gás: físico e químico. Os processos físicos são os seguintes: GNA (gás natural adsorvido), GNC (gás natural comprimido), GNL (gás natural liquefeito), GTS (gas to solid – gás na forma de hidrato). O processo químico é o GTL (gas to liquid).
  • Caio diz: O que é GNA? E quais as linhas de pesquisa?
  • Newton: Caio, GNA é o gás natural adsorvido. O GNA consiste em preencher o reservatório de GN com material poroso de elevada área superficial utilizando o fenômeno de adsorção para aumentar a sua capacidade de armazenamento em baixas pressões
  • Olavo Pereira diz: Por que não se aproveita o gás dos flares para geração de energia nas plataformas e por cabos submarinos conduzir esta energia para terra ou aproveitar nas plataformas durante a noite e de dia para as localidades mais próximas escolas, hospitais, praças?
  • Newton: Olavo, na realidade essa é uma linha de pesquisa que está sendo considerada pela Petrobras. Existem alguns gargalos tecnológicos que deverão ser resolvidos ao longo dos próximos anos.

    A queima de gás em flare é necessária por questões de segurança. O excedente de gás é exportado para terra via gasoduto. Mas existem algumas situações que pode valer mais a pena gerar energia na plataforma para uma rede elétrica pública.

  • Mauro Ribeiro diz: Ola Newton, é possível que a Petrobras possa aproveitar o Gás Natural de seus poços na tecnologia GTL, ou é muito mais rentável queimá-lo em termelétricas?
  • Newton: Mauro, o GTL é uma tecnologia que a Petrobras está desenvolvendo. Não existe planta de GTL embarcada (plataforma) no mundo. O custo dessa alternativa tecnológica ainda é muito alto, mas a Petrobras está investigando novos desenvolvimentos para viabilizar esta solução.
  • Renata diz: Olá! Sou graduanda em Logística em Transportes pela FATEC/BS. Meu trabalho de conclusão de curso será sobre Logística de Distribuição do Gás Natural. Muita tecnologia vem sendo desenvolvida para o transporte de gás natural. Inclusive, há um projeto da Petrobras em conjunto com a USP/IPT que estuda a viabilização da construção de um navio para o transporte de gás natural comprimido, que dispensaria o uso de dutos submarinos. Teria a logística do gás melhor desempenho com outras formas de distribuição, que não fosse necessariamente por dutos submarinos?
  • Newton: Renata, na realidade o projeto que a Petrobras tem com USP não é para construir um navio de GNC, mas o seu objetivo é a realização de um estudo conceitual dessa tecnologia. O GNC embarcado pode ser mais viável que o gasoduto submarino para determinados nichos de aplicação específicos, tais como: volume médio de gás produzido (acima de 1 milhão de m3/dia) e distâncias acima de 300 Km.
  • Gera diz: Existe alguma chance do Gás GLP ser substituído nas residências pelo Gás Natural ou o custo se torna inviável?
  • Newton: Gera, o custo do gás natural é menor do que o GLP, portanto é bastante viável a substituição de um energético pelo outro, e isso já tem ocorrido no Brasil nos últimos anos.
  • Caio diz: Newton, eu gostaria de saber também o que é HGN e GNL?
  • Newton: Caio, A tecnologia GTS (Gas-to-Solid), também conhecida como GNH (Gás Natural Hidrato), transporta o gás natural na forma de hidratos em condições de temperatura e pressão menos severas que o GNL e o GNC, respectivamente. O hidrato de metano (principal componente do gás natural) é um composto cristalino semelhante ao gelo ou neve formado por moléculas de água que encapsulam moléculas de metano formando uma espécie de cavidade. As cavidades se agrupam formando unidades cristalinas que se repetem, dando origem a núcleos de cristalização que eventualmente se condensam, formando estruturas macroscópicas. As estruturas macroscópicas podem, então, formar desde flocos a blocos de hidratos.

    O processo GNL contém as seguintes etapas: tratamento para remover contaminantes (H2O, CO2, H2S e Hg) e frações pesadas (GLP e C5), resfriamento, liquefação e armazenamento a -160ºC em tanques criogênicos. Atualmente, o grande desafio da aplicação do GNL é a aplicação offshore. O FLNG consiste em embarcar em um navio a planta de liquefação, os tanques criogênicos e o sistema de transferência e garantir uma operação segura, robusta e eficiente.

  • Rod diz: Você diz que o GN já está substituindo o GLP, mas é muito pouco ainda. Qual o projeto que tem o GN de alcançar as residências em %?
  • Newton: Rod, as companhias distribuidoras de gás têm a responsabilidade de fazer chegar o gás às residências. No estado do Rio de Janeiro isso já está acontecendo em muitas cidades do interior e na capital. A Petrobras se preocupa em atender a este crescente mercado consumidor.
  • Zé diz: A tecnologia GTS não poderia ser utilizada para armazenar combustível em automóveis em substituição aos tanques sob pressão?
  • Newton: Zé, o GTS é uma tecnologia de transporte de gás e não de uso final, porque requer uma planta de conversão de hidrato para gás.
  • Bruno diz: Quais são as linhas de pesquisas do GNA?
  • Newton: Bruno, as linhas de pesquisa são:
    – síntese, caracterização e ensaios com materiais adsorventes com elevada capacidade de armazenamento, tipicamente, carvão ativado, que apresenta a melhor relação custo/benefício;
    – engenharia térmica do reservatório de GNA, visando garantir carga e descarga isotérmicas;
    – leito de guardo para remoção de H2O e C2 para evitar perda na capacidade de armazenamento pela adsorção preferencial das frações pesadas;
    – ferramentas computacionais de projeto e avaliação de carvão ativado.
  • Bruna diz: E as linhas de pesquisa do hidrato?
  • Newton: Bruna, as linhas de pesquisa são:
    – desenvolvimento de promotores cinéticos de formação de hidratos;
    – desenvolvimento de ferramenta de avaliação e projeto de reatores de hidrato;
    – efeito da água do mar na etapa de formação; e
    – produção de hidratos utilizando água de produção de poços offshore.
  • Fabio diz: É possível aproveitar a pressão do gás nas estações de entrega do gasoduto?
  • Newton: Fabio, existem diversas formas de aproveitamento da pressão do gás nas estações de entrega do gasoduto, também conhecidas como citygate. A mais usual é o uso de expansores, que são máquinas que transformam a energia de pressão de um fluído em energia mecânica. Os expansores são acoplados em geradores elétricos de forma a gerar energia para a rede elétrica.

    Outra linha de pesquisa em citygate são as pequenas plantas de GNL, também conhecidas como SSLP (small scale liquefaction plant). Estas plantas aproveitam a energia de pressão do gás para a criogenia. O gás quando é expandido gera frio suficiente para liquefazer o gás natural.

  • Leo diz: Newton, para a área do ‘cluster’, na Bacia de Santos, já existe algum projeto estruturante para levar o gás à terra ?
  • Newton: Leo, a Petrobras tem como missão levar o gás descoberto em novas bacias para o mercado consumidor. A questão é verificar qual é a alternativa de menor custo. Na Bacia de Santos existem diversos desafios tecnológicos para os quais a Petrobras terá que encontrar uma solução de forma a atender este mercado.
  • Chico diz: Com o seu conhecimento, que visão você tem do futuro para o GNV com o grande aumento do etanol?
  • Newton: Chico, é interessante observar que o Brasil dispõe de diversos combustíveis para automóveis. Além disso, dispomos de tecnologia de ponta de motores multi-combustíveis. Isso dá opção ao consumidor de escolher o combustível que melhor lhe convem.
  • Rafael diz: Você acha que com o aumento da demanda pelo GNV, a produção consegue atender o mercado?
  • Newton: Rafael, a Petrobras está desenvolvendo ferramentas da logística de toda a cadeia, desde a produção até o consumidor final. Estas ferramentas permitem que a empresa se antecipe a um crescente consumo em uma determinada atividade econômica. Por isso a empresa está preparada para atender ao mercado de GNV. Por exemplo, o GNL já estará chegando ao Brasil neste ano, sendo mais uma opção de fonte supridora desse energético.
  • Guilherme diz: Dentre as diversas opções tecnológicas de gás natural que você citou, quais as que estão sendo usadas?
  • Newton: Guilherme, as tecnologias de transporte de gás natural estão em diferentes estágios de maturidade. O gasoduto e o GNL são as únicas que são largamente usadas no mundo. O GNC embarcado, baseado no transporte de gás natural comprimido em carreta feixe, está no limiar da maturidade tecnológica. Seu problema é custo. O GNA e o GtS ainda estão em fase de desenvolvimento.
  • Pedro diz: Essa tecnologia já é real ou ainda levará alguns anos para ser totalmente implantada? Quais os prós e contras dessa tecnologia?
  • Newton: Pedro, entendendo que você esteja se referindo ao GNL, esta tecnologia é real e será implantada neste ano. A sua vantagem é o aumento da densidade energética do gás. A sua desvantagem é o seu custo mais elevado, de forma que, para viabilizar esta tecnologia, é necessário o transporte de grandes volumes de gás. O Japão é um país que não produz gás, mas é um dos grandes importadores mundiais de gás natural através de GNL.
  • Hugo diz: Eu gostaria de participar do Prêmio Petrobras de Tecnologia. Quais os desafios dessa área que devo me concentrar para enviar um projeto?
  • Newton: Hugo, muito boa pergunta. É ótimo saber que você está interessado em desenvolver um trabalho na área de gás natural. Temos muitos desafios a serem vencidos. Sugiro que você se concentre nas tecnologias relativas a transporte de gás natural, microcanais para processamento de gás, plantas de processo embarcadas, kit diesel-gás e aplicações residenciais e comerciais do gás natural.
  • Pessoal, foi muito bom ter participado deste chat. Espero ter respondido as diversas perguntas e exorto vocês participarem do Prêmio Petrobras de Tecnologia no tema Tecnologia de Gás. Espero ver um de vocês na cerimônia de premiação. Abraços!